"Andamos a pagar a crise
há muitos anos"

Entre a Praça dos Restauradores e o Ministério das Finanças, no Terreiro do Paço, milhares de cidadãos que asseguram funções do Estado - da Educação à Saúde, da Administração Local à Administração Central - repudiaram energicamente esta política de ataque aos trabalhadores, que recusam "pagar a factura" da crise, quando se sabe que, na última década, perderam, em média, mais de 6 por cento nas suas remunerações, na sequência de orientações políticas de sucessivos governos.

"Andamos a pagar a crise há muitos anos", como dizia à nossa reportagem um professor do ensino secundário, do Grande Porto, que acrescentava:
"Muito se fala de crise nas televisões, mas pouco se esclarece as pessoas sobre as verdadeiras razões e os responsáveis deste crise, assim como das opções, nos cortes, que este Governo assumiu no Orçamento do Estado para 2010..."

Das intervenções, das palavras de ordem, das inscrições nos panos e cartazes e dos depoimentos recolhidos pela comunicação social ao longo deste desfile no coração de Lisboa, sobressaíu uma mensagem que os Sindicatos têm que continuar a levar à opinião pública e aos responsáveis políticos: os trabalhadores da Administração Pública não podem continuar a pagar a crise e recusam ser o bode expiatório da situação criada no País!

Outra nota saliente foi a determinação e a confiança dos que não desistem de lutar. Como sublinhou Manuel Carvalho da Silva, Secretário Geral da CGTP-IN, "a luta tem de continuar porque o futuro não se faz com a política que eles [o Governo] apresentam, mas sim com as propostas que nós [sindicatos] desenvolvemos".

Mário Nogueira, Secretário Geral da FENPROF, sublinhou que o recado fica bem claro depois desta manifestação nacional, frisando que o Governo Sócrates tem de perceber que não pode resolver os problemas do País à custa dos trabalhadores da Função Pública.

José Carlos Martins, dirigente do Sindicato dos Enfermeiros Portugueses (SEP), garantiu que a luta não vai ficar por aqui e deixou um forte apelo à unidade dos trabalhadores em torno das suas organizações representativas.

Reivindicações dos professores

Lado a lado com os outros trabalhadores, os educadores e professores que responderam ao apelo da FENPROF e dos seus Sindicatos exigiram o fim das quotas na avaliação do desempenho, a contagem integral do tempo deserviço, a gestão democrática nas escolas e os aumentos salariais para uma efectiva recuperação do poder de compra.

Uma pérola" do secretário de Estado
da Administração Pública em dia de manifestação...

A manifestação desta sexta-feira, que terá reunido mais de 50 000 participantes, reafirmou também as preocupações dos trabalhadores e das suas organizações representativas face a uma política que continua a desvalorizar as funções sociais e as responsabilidades do Estado, numa altura em que a aposta no urgente desenvolvimento económico e social deveria passar pela aplicação de políticas públicas dinâmicas e corajosas, de progresso e modernização, contribuindo, assim, para um efectivo combate à "crise".
Indelizmente, o Governo parece mais interessado na política-espectáculo, na dramatização, na chantagem e na velha política do desrespeito agressivo pelos trabalhadores e pelas suas organizações representativas. Registe-se, a propósito, esta "pérola" do secretário de Estado da Administração Pública, Gonçalo Castilho dos Santos, em dia de manifestação: "A Frente Comum tem um discurso passadista, retrógrado e conservador".../ JPO